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O luto nas escolas

Autoria: Eduardo Abe da Cruz (CRUZ, Eduardo Abe da)


Desde o primeiro caso de morte confirmado no Brasil por Covid-19, em 12/03/2020 (PORTAL G1, 2020), esta doença vitimou centenas de milhares de brasileiros (BRASIL, 2021), familiares e amigos dessas vítimas ainda vivenciam a sua perda. Dentre estas vítimas, há alunos, professores e outros profissionais da escola, assim como seus familiares. Cada um vivenciou/vivencia o seu luto a seu modo. Mas qual a importância da comunidade escolar na vivência do luto de seus alunos e profissionais da escola? Como a escola pode auxiliar nesta vivência de luto?

Antes de responder a essas perguntas, é importante compreender o luto não como uma doença ou experiência psiquicamente patológica, mas como experiência vital individual e pessoal (FRANCO, 2009) pela qual todos passaremos de forma mais direta ou indireta, com ou sem dificuldades, a depender do histórico e vínculo afetivos entre enlutado e o falecido, assim como dos aspectos culturais e sociais do enlutado.


Apesar de o luto não ser considerado patologia, é imprescindível um olhar atencioso e uma escuta ativa ao enlutado a fim de auxiliá-lo na vivência de seu luto e na continuidade de sua vida, assim como para evitar o surgimento de complicações psicológicas. Para a vivência do luto sem complicações são necessários a construção e o encontro de significados visando a substituição dos vínculos rompidos (FRANCO, 2010).


Abordar o luto nas escolas é compartilhar, validar e ressignificar o sentimento de perda de forma coletiva. Quando um aluno, professor ou outro funcionário da escola falece, essa perda pode e deve ser enfrentada usando a própria escola. Segundo Tinoco “é muito importante que seja feito algo que marque, uma homenagem que valorize a vida daquela pessoa. Nesse contexto coletivo, vamos ter pessoas mais próximas e outras não tão próximas da pessoa que morreu. Talvez as mais próximas possam ajudar a construir esse ritual coletivo com ideias” (PORTAL PORVIR, 2021).


A escola torna-se ainda mais importante quando o aluno vivencia a morte de alguém muito próximo à sua família cujo sentimento de perda abale toda a família. Nesses casos, os familiares deste aluno encontram-se sem condições psicológicas e emocionais para cuidar dele. O único canal de expressão e compartilhamento de seus sentimentos encontra-se na escola. Os professores e demais funcionários da escola, pela convivência diária com ele, têm conhecimento de suas reações e atitudes e podem ser referência para ele nesse momento de sofrimento e dor (KOVACS, 2010). Em outra entrevista, Tinoco enfatiza que “o maior prejuízo em não falar sobre a morte é deixar as crianças terem dúvidas e passarem por essa experiência sozinhas, ou seja, não ter o apoio de um adulto para guiá-la na compreensão de algo que faz parte da vida” (PORTAL VIVESCER, 2021). Sabemos que a morte ainda é um tabu na sociedade brasileira, porém é preciso compreendê-la como parte do desenvolvimento humano (KOVACS, 1992).


E como os professores podem abordar o tema da morte e do luto com as crianças e adolescentes na escola? Não há receitas ou formas padronizadas para falar de morte com as crianças, porém elas precisam encontrar um canal para se expressarem e compartilharem os seus sentimentos de perda e culpa (TORRES, 1999 apud KOVACS, 2010). Apesar de a morte produzir dor e sofrimento, motivo pelo qual nos afastamos deste tema e pelo qual acreditamos que as crianças não compreenderão a sua universalidade e irreversibilidade, Tinoco afirma que “cada criança, ao seu tempo, vai entender. Como qualquer outro tema, não há uma compreensão total no início, ela será construída” (PORTAL VIVESCER, 2021). Tinoco prossegue “o mais importante é o próprio professor se sentir confortável para falar sobre o tema. É necessário ter em mente que vão surgir perguntas difíceis, como, por exemplo ‘o que acontece quando alguém morre?’”. Franco alerta que “como educador, não se pode dirigir o pensamento do aluno, seja qual for a sua religião. O professor vai falar sobre o fato. Vai falar que existem diversas religiões, diversas formas de entender, e isto posto, acompanhar a compreensão do aluno” (PORTAL PORVIR, 2021).

Segundo Naletto (2005), o professor deve respeitar o momento do aluno enlutado, porém deve manter um canal de comunicação aberto para que ele fale quando quiser. É possível que o rendimento escolar deste aluno caia, portanto, é importante a flexibilização das avaliações e prazos de entrega. A autora também alerta para o cuidado com os colegas de classe deste aluno que também serão afetados pelo luto; o professor deve abrir um espaço para que as crianças conversem sobre suas dúvidas e compartilhem seus sentimentos. Diante de perguntas como: para onde a pessoa vai quando morre?, por que o fulano morreu?, quem morre vai para o céu?, quem morre vira anjo?, o professor não deve dar respostas de base religiosa, por isso, é melhor que as respostas a estas perguntas sejam dadas pelos pais das crianças a fim de evitar divergências com as crenças dos pais e assim gerar conflito de opiniões e conflitos na família.

Concluindo, não falar sobre morte e luto nas escolas é favorecer que alunos, professores e demais profissionais da educação vivenciem suas perdas de forma isolada e sem apoio, favorecendo o surgimento de complicações de ordem psicológica. A vivência do luto exige o compartilhamento da dor e do sofrimento a fim de buscar a sua ressignificação.



Referências Bibliográficas

BRASIL. Ministério da Saúde. Painel Coronavírus. Disponível em: <https://covid.saude.gov.br/>. Acesso em: 06 ago 2021.

FRANCO, Maria Helena Pereira. Luto com experiência vital. Quatro Estações Instituto de Psicologia, 2009. Disponível em: <https://www.4estacoes.com/pdf/textos_saiba_mais/luto_como_experiencia_vital.pdf>. Acesso em: 06 ago 2021.

FRANCO, Maria Helena Franco (org.). Formação e rompimento de vínculos. São Paulo: Summus Editorial, 2010.

KOVÁCS, Maria Júlia (coord.). Morte e desenvolvimento humano. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1992.

KOVÁCS, Maria Júlia. A morte no contexto escolar: desafio na formação de educadores. In: FRANCO, Maria Helena Franco (org.). Formação e rompimento de vínculos. São Paulo: Summus Editorial, 2010.

PORTAL G1. Primeira morte por coronavírus no Brasil aconteceu em 12 de março, diz Ministério da Saúde. 2020. Disponível em: < https://g1.globo.com/bemestar/coronavirus/noticia/2020/06/27/primeira-morte-por-coronavirus-no-brasil-aconteceu-em-12-de-marco-diz-ministerio-da-saude.ghtml>. Acesso em: 06 ago 2021.

PORTAL PORVIR. Pandemia coloca escola diante da necessidade de explicar o luto. São Paulo. 22 abr. 2021. Disponível em: < https://porvir.org/pandemia-coloca-escola-diante-da-necessidade-de-explicar-o-luto>. Acesso em: 06 ago 2021.

PORTAL VIVESCER. Como Conversar Sobre Luto Com As Crianças Na Escola. Disponível em: < https://vivescer.org.br/luto-na-escola>. Acesso em: 06 ago 2021.


 
 
 

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"Nenhuma pedagogia que seja verdadeiramente libertadora pode permanecer distante do oprimido, tratando-os como infelizes e apresentando-os aos seus modelos de emulação entre os opressores. Os oprimidos devem ser o seu próprio exemplo na luta pela sua redenção"
 Paulo Freire

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