Arte-educação na valorização cultural africana, afro-brasileira e indígena
- rebeckaartusi
- 20 de nov. de 2021
- 7 min de leitura
Atualizado: 28 de nov. de 2021
OBS: Este texto faz parte do projeto de Iniciação Científica da Universidade Nove de Julho - UNINOVE (2021-2) que tem como enfoque o âmbito da Arte-educação e foi adaptado para a postagem no blog.
Autoria: Rebecka da Silva Artusi (ARTUSI, Rebecka da silva)
Professora Orientadora: Maria Aurora Dias Gaspar
Historicamente, o pensamento de que existiria uma raça e cultura superior às demais se disseminou e ainda hoje, erroneamente, se mantém de pé. A globalização e a supervalorização de culturas do Norte Global mantém o Sul Global em um local de inferioridade, submissão e até mesmo aversão. Dentre tais culturas desvalorizadas enfatizamos as culturas africanas, afro-brasileiras e indígenas, que por muitas vezes são reduzidas ao passado e suas infelicidades, ocupando assim um lugar inferiorizado. No Brasil, a desvalorização de nossas raízes - ainda vivas, cabe ressaltar - impacta no processo de identidade cultural e na autoestima dos brasileiros, principalmente para aqueles que se distanciam do padrão valorizado.
Há tempos, a escola vem sendo colocada como a grande responsável pela moldagem dos cidadãos, onde os alunos devem ser ensinados de acordo com o que a sociedade espera, não só no que diz respeito às principais áreas do saber, mas também referente à valores e comportamentos, porém sabemos que a escola não é a única a influenciar a construção do sujeito, ainda assim, não se pode descartar a importância que a mesma possui neste processo.
O que aprendemos e sabemos sobre a história do nosso Brasil é constantemente pautado somente na perspectiva européia, essa limitação extingue a história de outros povos que também foram essenciais na construção do Brasil que conhecemos hoje, como os povos indígenas e africanos. Esse distanciamento constrói uma identidade sociocultural que não condiz com nossa realidade, nesse contexto, o estudo das culturas afro-brasileiras e indígenas se faz necessário nas escolas, conforme previsto na lei n° 11.645/2008, tendo em vista sua importância na formação da identidade cultural brasileira, além disso, esse reconhecimento pretende reduzir as segregações raciais e sociais que acometem tais grupos culturais, assim, considerando a aproximação com a diversidade cultural dentro das escolas, espera-se incentivar uma atitude positiva dos estudantes frente às diferenças, além de quebrar estigmas a respeito dos grupos étnico-culturais, afastando-se do etnocentrismo existente na educação atual (GUEBERT, 2018).
A arte trabalha com questões estéticas e sensíveis e dentro dessa perspectiva espera-se que a mesma, no âmbito escolar, possa contribuir no entendimento das diferentes culturas que estruturam a identidade do povo brasileiro, porém cabe ressaltar que a forma como este conhecimento será repassado deverá ser antes pensado, tendo em vista que, para bons resultados não discriminatórios, tais culturas não devem ser tratadas de maneira exótica, reduzida, inferior a uma cultura dominante ou até mesmo como sendo uma cultura extinta (GUEBERT, 2018).
Conforme apontado por Silva (2011), ao trazer o reconhecimento de culturas até então não valorizadas para o ambiente escolar, os professores devem se distanciar de certos conceitos antigos que permanecem na educação, tendo então como objetivo favorecer um ensino voltado à reflexão, aprendizado e progresso de certas comunidades, nesse sentido, ao se propor ensinar sobre determinadas culturas nas aulas de artes, os professores devem desconstruir seus próprios preconceitos.
Em nosso mundo, há uma ampla diversidade de culturas e sabe-se que, inclusive, encontra-se características de uma determinada cultura que se opõem às normas e valores de uma outra, essa diferenciação existe e muitos passam a acreditar, dentro de sua visão, que sua cultura é superior às demais, como pontua Silva (2011). A arte na educação pode ser importante nessa luta contra as intolerâncias e preconceitos socioculturais e raciais ao contextualizar as expressões artísticas de diferentes povos e promover essa aproximação com culturas distintas, aliada a uma educação pluralista que incentive a valorização de diferenças, pois é através do conhecimento que se oportuniza o desmantelamento de pré-conceitos (GUEBERT, 2018).
Como já foi dito, frequentemente os povos indígenas e africanos são colocados em um lugar de passado, nesta linha, Guebert (2018) afirma que ao abordar a arte contemporânea de tais povos, como por exemplo no que tange à arte cinematográfica, possibilita-se essa associação com o hoje e o reconhecimento de destes como atuais, como pessoas que existem e possuem o direito de manifestar sua cultura.
Segundo a autora Thomas (2017) citada por Guebert (2018), a função da arte trazida pela perspectiva europeia está relacionada com a contemplação estética, já a arte dos povos indígenas e africanos traz consigo outros objetivos, como o uso em rituais e cerimônias. Considerando a arte que fomos ensinados a valorizar, de origem europeia, e sua principal função de contemplação estética, poderíamos tentar refletir sobre como a estética se torna importante em nossa sociedade, além disso, refletir sobre qual estética seria essa e se dentro dela podemos abarcar as diversidades ou se, então, seguimos um único padrão construído para classificar o que é bonito e o que é feio. Como isso pode influenciar nossas relações no que diz respeito à aparência dos que nos rodeiam e de nós mesmos?
Mendes (2013) assinala que através da cultura visual descobrimos o mundo, além disso, a autora destaca que muitos artistas, em suas obras, retratam o negro junto à pobreza e sofrimento, ou até mesmo, no caso das mulheres negras, as representam como objeto sexual. Se através da arte descobrimos o mundo, como descobrimos o negro com as perspectivas apresentadas? Tais visões recolocam o negro em uma posição inferior, o que contribui para a construção de sentimentos de inferioridade em pessoas negras. A escravidão trouxe consigo a inferiorização dos afrodescendentes, esse pensamento ainda se mantém e tais indivíduos reconhecem-se no estereótipo de inferioridade (MENDES, 2013).
Em seu estudo, Guebert (2018) referenciando Barbosa (1998), aponta que através da arte visual, que possui a imagem como alicerce, possibilita-se a visualização de quem somos, no contexto da educação a arte torna-se então uma ferramenta importante para a identificação cultural e o desenvolvimento.
Voltando-se para a Psicologia, durante a infância inicia-se a formação de convicções profundas de pensamento, tais convicções são nomeadas de “Esquemas” pela Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), estes Esquemas são construídos e influenciados por vivências, ensinamentos, referências parentais, práticas educativas formais e informais e entre outros (WRIGHT et al., 2019). Dentro do contexto de Esquemas existem as “crenças nucleares sobre si mesmo”, tais crenças são normas absolutas que norteiam a maneira como o indivíduo interpreta informações ligadas à autoestima - podendo estas serem positivas ou negativas - um exemplo de crença nuclear poderia ser a ideia de que “sou um fracasso” (D. CLARK et al., 1999 apud J. S. BECK, 2013). As crenças nucleares negativas podem ser classificadas em três esferas: desamparo, desamor e desvalor (BECK, 1999; J. S. BECK, 2005 apud J. S. BECK, 2013).
Paulo Freire (1970) em seu livro “Pedagogia do Oprimido” traz a conclusão de que os indivíduos oprimidos acabam por introjetar a perspectiva do opressor acerca de si próprio, causando assim uma autodesvalia, nesse contexto, o oprimido anseia pelos padrões de vida do opressor, desejando assemelhar-se a ele, pois estes - no pensamento construído historicamente - são superiores.
Nesta linha, cabe a nós repensarmos sobre a maneira como os povos africanos, afro-brasileiros e indígenas são representados em algumas obras e seu direcionamento inferiorizante que pode contribuir para a concretização de crenças negativas de desvalor, que estão ligadas, por sua vez, à autoestima desses grupos. Além de repensarmos sobre como as expressões artísticas vindas dos povos africanos, afro-brasileiros e indígenas são ignoradas ou abordadas de forma que não contribui para a valorização das mesmas no âmbito escolar.
CONSIDERAÇÕES PRELIMINARES
Comumente o pensamento de que os povos africanos e indígenas pertencem somente ao passado do Brasil é disseminado, porém estes, além de contribuírem para a formação do que somos, também vivem e fazem parte do nosso país no hoje. Quando nos voltamos para as diferentes culturas existentes em nosso país, neste caso através da arte, podemos enxergar as diferentes realidades que sempre existiram ao nosso redor ou em nós mesmos. O estreitamento com nossa diversidade pode resultar no enaltecimento e gentileza com tais diferenças, diferenças estas que fazem parte da identidade do povo brasileiro, porém que ainda hoje são alvo de discriminação.
A supervalorização da cultura Norte Global e suas estéticas no campo da arte, seja em pinturas ou até mesmo no cinema (filmes e séries), mantém o discurso de uma superioridade cultural e popularmente queremos ser superiores e nos identificar culturalmente a isso, desvalorizamos e até mesmo ignoramos nossas raízes e o que somos, podendo haver uma negação a respeito de nós mesmos e consequentemente uma redução da autoestima, aliás, por que estimar algo retratado como inferior?
Além disso, em nosso processo de inserção cultural somos direcionados a acreditar em uma única verdade absoluta, em um caminho ou jeito certo de se fazer as coisas, tal pensamento fortalece a intolerância às diferenças, aqui podemos enfatizar questões religiosas e padrões estéticos. Nesta linha, no âmbito da arte-educação, faz-se necessário ressaltar a importância do educador tratar de maneira inclusiva as diferenças culturais, no sentido de estimular o respeito aos diferentes modos de viver para se chegar ao reconhecimento e valorização das culturas africanas, afro-brasileiras e indígenas.
Factualmente, ainda na atualidade, as pessoas negras continuam sofrendo opressões e vivenciando um discurso inferiorizante, tal experiência acaba por internalizar tais discursos, desenvolvendo crenças negativas em relação a si próprios. Anteriormente, com Paulo Freire (1987), vimos que a opressão pode contribuir para a autodesvalia, que trazendo para a Terapia cognitivo-comportamental poderia ser classificado como uma crença nuclear de desvalor. Wright e colaboradores (2019) afirmam que os Esquemas - que englobam as crenças nucleares ligadas à autoestima - sofrem também a influência de práticas educativas formais, nesse cenário, podemos pensar a importância das escolas, e mais especificamente, da sua abordagem em aulas de artes, no fortalecimento de estereótipos e pensamentos de valorização ou desvalorização dos povos aqui mencionados, perpetuando ou não os sistemas de opressão atuais.
FONTES CONSULTADAS
BECK, J. S. Identificando e modificando crenças nucleares. In: BECK, J. S. Terapia cognitivo-comportamental: teoria e prática. Tradução de S. M. da Rosa. 2. ed. Porto Alegre: Artmed, 2013. p. 249.
FREIRE, P. Pedagogia do oprimido. 17. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.
GUEBERT, P. R. Diversidade cultural: as artes africana, afro-brasileira e indígena na educação básica. 2018. Trabalho de Conclusão de Curso (Licenciatura em Artes Visuais) - Centro Universitário Internacional Uninter, Canoinhas, 2018.
MENDES, Z. B. Arte afro: abordando questões sobre estereótipos e autoestima na educação. 2013. Trabalho de Conclusão de Curso (Licenciatura em Artes Visuais) - Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2013.
SILVA, M. da. Os caminhos da arte, cultura e identidade étnica na escola. Linguagens - Revista de letras, artes e comunicação, Blumenau, v. 5, n. 2, p. 184-195, mai./ago. 2011.
WRIGHT, J. H. et al. Princípios básicos da terapia cognitivo-comportamental In: WRIGHT, J. H. Aprendendo a Terapia Cognitivo-Comportamental: um guia ilustrado. Tradução de M. G. Armando. 2. ed. Porto Alegre: Artmed, 2019. p. 7-9.




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